sábado, 28 de janeiro de 2012

Trabalhar por um sorriso *


Entre a impotência e resignação, uma gota no oceano, como as ilhas de Cabo Verde perdidas num oceano grande como o Atlântico. Uma gota no mar é aquilo que se pode fazer diante do mar de problemas, de animais, de doenças; uma gota no oceano é a ajuda que se pode dar, usando nada, porque nada deve bastar para tudo, inventando-se tudo.

Centenas de olhos observando, esperançosos, tristes, resignados, necessitados de um afago, de afecto. Os cães vagueiam pelas ruas do Mindelo como sombras que ninguém vê, rensignados ao seu destino, procurando comida. Impressionante como não se  reúnem em matilhas, mas permanecem isolados, respeitosos de cada migalha de pão que algum ser humano lhes lança.

No meio disso tudo, a SIMABÔ, que em nossa língua significa “como tu”, porque estes animais são seres vivos como nós e, como nós, precisam de amor, alimentos e cuidados.

Silvia e Paolo, que com grande coragem deram origem a esta associação no Mindelo, fazendo milagres, juntamente com todas as pessoas que trabalham todos os dias para limpar o local e dar comida e carinho para todos os pacientes e todos os colegas veterinários que - como eu - foram voluntários para trazer toda a ajuda possível para estas criaturas. Pessoas cuja ajuda é essencial. Pessoas cujo apoio é crucial, pessoas como Susan que todos os dias com muita paciência e amor, junto com meus filhos Richard e Scarlett, levaram todos os cães para uma caminhada na rua. Nunca vou esquecer os olhos daqueles cães quando viam Susan com as coleiras!

Minha experiência em três palavras: traumática, esclarecedora, profunda.

Traumática, porque temos que dar a fundo toda a nossa força para suportar o esforço de dezenas de casos clínicos e cirúrgicos com os recursos reduzidos a nada, onde tudo é importante: uma seringa, um medicamento, um pedaço de gaze deve bastar para todos. Meios de diagnóstico não há, estamos apenas com as mãos, olhos, olfato, com a experiência que temos para compreender e agir da melhor maneira para curar, salvar vidas, fazer todo o possível.

Esclarecedora, porque, quando tudo falta, percebemos como somos sortudos, e damo-nos conta que todas aquelas coisas que consideramos naturais, como a água a escorrer de uma torneira, são por vezes uma grande fortuna. Os medicamentos, a limpeza, a cultura de respeito aos direitos dos animais, todas essas coisas que aqui (na Itália) são normais, do dia-a-dia, em Cabo Verde não são.

Profunda porque trabalhar por um sorriso, o sorriso de uma daquelas dezenas de crianças que todos os dias ficavam à espera à porta da SIMABÔ  para visitar o seu pequeno cão não é mais um trabalho, é respirar a liberdade. A liberdade de fazer uma criança sorrir novamente, em sua incontaminada sensibilidade, ama o seu cão.

Há uma história, entre várias que aconteceram que acho que merece ser contada.

No segundo dia da nossa estada, chega uma cadela de médio porte com sinais de ter sofrido um acidente na rua, seguramente foi atropelada por um carro. Tinha ferimentos por todo o corpo, sofria dores e tinha quebrado a perna dianteira esquerda. Chorava, sem parar. Ao examiná-la rapidamente percebi que tinha dado à luz recentemente: tinha leite e todos os sinais do trabalho de parto. Então, supus que este pobre animal tinha filhotes escondidos em algum lugar e, enquanto estava em busca de comida, tinha sofrido o acidente.

Com o passar do tempo percebemos que a nossa intuição estava correta: a cadela tentou insistentemente sair, apesar de ter uma perna quebrada. Então fizemos com que saísse devagar, dada a dificuldade óbvia em ficar em pé, esperando que nos levasse aos filhotes, mas ela não podia se mover mais do que alguns passos. No dia seguinte, nunca vi tanta tristeza nos olhos de um animal: estava encolhida num canto; apesar dos analgésicos, dos cuidados e carinhos, parecia morta. No terceiro dia, como sempre, enquanto estávamos visitando as dezenas de cães, ouvimos de repente um grande barulho vindo de sua gaiola, ela estava latindo, batendo contra a porta, alheiaa à dor da fractura na perna. Abrimos a portinhola e ela fatirou-se para a porta de entrada com fúria, rumo às pessoas que estavam enfileiradas esperando a visita. Entre elas estavam dois meninos cada um com duas pequenas bolas de pelo nas mãos, e eram seus filhotes.Eles tinham encontrado os caezinhos e que estavam levando para SIMABÔ porque não sabia o que fazer com eles. A mãe deve tê-los ouvido a uma distância de metros. Ela saltou para as crianças que tinham seus filhotes e deitou-se para alimentá-los, depois de os ter lambido cuidadosamente.

Quinze dias vividos intensamente, com pessoas excepcionais, que têm dedicado as suas vidas a tentar mudar uma situação muito difícil, inconcebível para nós, quase inacreditável mas bastante real e muito mais drástica do que se possa imaginar até vivê-la pessoalmente. No entanto, no pouco tempo que passei no Mindelo, percebi que a mudança da situação não é impossível e que com a ajuda de todos é possível fazer muita coisa. O caminho empreendido é sem dúvida o correcto, porque traz a esperança de que uma mudança é possível, se renova dia após dia o sentimento das crianças em relação ao seu animal de estimação e se demonstra concretamente que todos os animais podem ser tratados para garantir uma vida digna junto do homem, o companheiro de uma vida ... Obrigado, SIMABÔ.

Um agradecimento a Almo Nature, que me permitiu conhecer pessoalmente a Dr. Rossana Raineri que com muita dedicação, profissionalismo e experiência de trabalho no terreno estabeleceu os protocolos de terapêuticos em que se baseia o trabalho dos veterinários voluntários. Protocolos estudados no campo, avaliados de acordo com as condições desses animais, porque no Mindelo até um simples anti-helmíntico pode matar.

Um obrigado especial aos meus filhos, de tenra idade, mas que nessa experiência foram muito corajosos e que muitas vezes deram-me a força para seguir em frente.

Ciao Ben Ten, ciao To Jo, ciao Biondo, ciao Alux, ciao Diana, ciao Beach, ciao Mirandigna, ciao Manka, ciao a todos vocês e aos outros: vocês estão no nosso coração.

Benedetta & Roberto



* Adaptação para o português do texto “Lavorare per un sorriso”, que se encontra no original em http://simabo.wordpress.com/. É o comentário do casal de veterinários Benedetta e Roberto, que passou as férias do fim de ano a trabalhar na SIMABÔ, tendo como voluntários também os seus filhos Rossella e Riccardo.

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